It's up to you

É no mínimo gratificante encontrar textos bem articulados, com argumentação respaldada por princípios científicos a fortalecer nossos posicionamentos pessoais frequentemente criticados.

Senti isso quando tive acesso ao texto abaixo e me lembrei do que postei aqui, no início do ano, sobre o “Copenhagen 2009”.

Este texto é, na verdade, um capítulo do livro intitulado “The weather makers”, do cientista e conservacionista australiano Tim Flannery. Em sua obra, Flannery analisa o comportamento humano contemporâneo, seu impacto ambiental e explora ainda as conseqüências potenciais de tal comportamento.

Chapter 35: Over to You

There is one thing that no CEO can afford to look away from – the melee of buyers and sellers known as the market. It is my firm belief that all the efforts of government and industry will come to naught unless the good citizen and consumer takes the iniciative, and in tackling climate change the consumer is in a most fortunate position.

You can, in a few months rather than the fifty years allowed by some government, easily attain the 70 % reduction in emissions required to stabilize the earth’s climate. All it takes are a few changes to your personal life, none of which requires serious sacrifices.

Understanding how you use electricity is the most powerful tool in your armory, for that allows you to make effective decisions about reducing your personal emissions of CO2. To begin, pick up and read carefully your electricity bill. Is your bill higher than it was at the same time last year? If so, why? A phone call or e-mail inquiry to your power supplier may help clarify this.

If you wish to take more decisive action, the best place for most people to start is with hot water. In the developed world, roughly one-third of CO2 emissions result from domestic power, and one-third of a typical domestic power bill is spent on heating water. This is crazy, since the sun will heat your water for free if you have the right device. An initial outlay is required, but such are the benefits that it is well worth taking out a loan to do so, for in sunny climates like California or southern Europe the payback period is around two or three years, and as the devices usually carry a ten-year guarantee, that means at least seven to eight years of free hot water. Even in cloudy regions such as Germany and Britain, you will get several year’s worth of hot water for free.

If you wish to reduce your impact even further, start with the greatest consumers of power, which for most people are air conditioning, heating, and refrigeration. If you are thinking of installing any such items, you should seek out the most energy-efficient model available.

A good rule of thumb is to choose the smallest device to suit your average needs, and consider alternatives: it may be cheaper to install insulation rather than buying and running a larger heater or cooler. It can be difficult to convince children that they need to turn off appliances when they are finished with them. One way to teach them is for a family to examine its power bill together and set a target for reduction. When it’s met, give the kids the savings.

It is not feasible right now for most of us to do away with burning fossil fuels for transport, but we can greatly reduce their use. Walking wherever possible is highly effective, as is taking public transport. Hybrid fuel vehicles are twice as fuel efficient as a standard, similar-sized car, and trading in your four-wheel-drive or SUV for a medium-sized hybrid fuel car cuts your personal transport emissions by 70% in one fell swoop.

For those who cannot or do not wish to drive a hybrid, a good rule is to buy the smallest vehicle capable of doing the job you most often require. You can always rent for the rent for the rare occasions you need something larger. A few years from now, if you have invested in solar power, you should be able to purchase a compressed-air vehicle. Then you can truly thumb your nose at all of those power and gas bills.

As you read through this list of vacations to combat climate change, you might be skeptical that such steps can have such a huge impact. But not only is our global climate approaching a tipping point, our economy is as well, for the energy sector is about to experience what the Internet brought to the media – an age wherein previously discrete products are in competition with each other, and with the individual.

If enough of us buy green power, solar panels, solar hot water systems, and hybrid vehicles, the cost of these items will plummet. This will encourage the sale of yet more panels and wind generators, and soon the bulk of domestic power will be generated by renewable technologies. This will place sufficient pressure on industry that, when combined with the pressure from Kyoto, it will compel energy-hungry enterprises to maximize efficiency and turn to clean power generation. This will make renewables even more affordable. As a result, the developing world – including China and India – will be able to afford clean power rather than filthy coal.

With a little help from you, right now, the developing giants of Asia might even avoid the full carbon catastrophe in which we, in the industrialized world, find ourselves so deeply mired.
Much could go wrong with this linked lifeline to climate safety. It may be that the big power users will infiltrate governments further and stymie the renewable sector; or maybe we will act too slowly, and nations such as China and India will have already invested in fossil fuel generation before the price of renewable comes down. Or perhaps the rate of climate change will be discovered to be too great and we will have to drawn CO2 from the atmosphere.

As these challenges suggest, we are the generation fated to live in the most interesting of times, for we are now the weather makers, and the future of biodiversity and civilization hangs on our actions.

I have done my best to fashion a manual on the use of Earth’s thermostat. Now it’s over to you.

The weather makers -  Tim Flannery


Uma verdade bem conveniente.

"Se o estudo ao qual nos dedicamos tem a tendência de enfraquecer-nos as emoções e destruir nosso gosto pelos prazeres simples que nada pode corromper, então esse estudo é certamente inadequado à mente humana. Se tal regra tivesse sempre sido observada, se homem algum permitisse que sua busca, fosse qual fosse, interferisse na tranquilidade de sua vida particular, a Grécia não teria sido escravizada, César teria poupado sua terra, a América teria sido descoberta mais gradualmente e os impérios do México e do Peru não teriam sido destruídos."

Frankenstein - Mary Shelley.


On translation

"O tradutor, antes mesmo de sê-lo, é leitor. E como todo leitor, negligente ou rigoroso, seu primeiro movimento é de se entregar ao que lhe falam. De considerar o que lhe contam. De tomar pé, certamente, das palavras que lhe são servidas, mas logo se evade e constroi uma representação da experiência que lhe é produzida. Experiência a partir da qual ele supõe, sem mesmo dar-se conta, que o próprio autor foi embora. Ele incialmente presta menos atenção no que lhe é dito do que no que o entretém.
Seria inútil, seria estúpido alguém reprová-lo por isso. Mas seria uma espécie de cegueira não reconhecê-lo. E não perceber que toda sua prática, com muita frequência, deriva desse modo de leitura. Pois não é de praxe que, uma vez construída essa representação, o tradutor se volte e considere a sequência de vocábulos que a permitiu. E sua tarefa então lhe parece clara: essa representação, é necessário dizê-la. E dizê-la, pensa ele, "como se diria", ou seja, naturalmente, espontaneamente, direto e sem contorções. Porque o tradutor tem, como todos, o sentimento profundo e mal definível de que existe para qualquer representação uma maneira de dizer espontânea, natural, direta e nua, que ele conhece e que lhe pertence, da qual não pode se afastar".

CHEVALIER, "Traduction, littéralité et chaîne de causalités", 1995.


Máquina x tradução

    Hoje, pela primeira vez, deparei-me com uma reportagem sobre tradução que projeta o panorama futuro da atividade, que apresenta uma cronologia sobre o desenvolvimento de tradutores automáticos, que filosofa sobre Babel, que considera entrevistas com intercambista, construtor civil, cientista da computação, relações-públicas, entre outros, mas que não se dá ao trabalho de conferir a opinião de um reles tradutor profissional.
Trata-se da recente “Do you speak google”, publicada pela Veja em 03/05/2010.
    É o mais evidente espetáculo de desatinos, materializado pela implicitação de que é Deus no céu e o google tradutor na terra. Surtos à parte, vou me restringir a opinar sobre a aterrorizante perspectiva de ‘genocídio’ dos tradutores.
Em primeiro lugar, desde que o mundo é mundo profissões surgem, desaparecem ou transformam-se em atividades que apenas remotamente assemelham-se à original. As conceituações variam ao longo dos anos. 
Especialmente com o advento da revolução industrial, no século XVIII, tal fenômeno só foi acentuado. Transformações sociais que antes levariam séculos para mostrarem-se evidentes, a partir de então tomam forma em questão de meses. Ingenuidade é não enxergar isso.
Desde agora já esclareço: não desacredito na possibilidade de máquinas me chutarem pro olho da rua. Mas, juntamente com isso eu te asseguro uma coisa: a essa altura, peitos abertos em salas de cirurgias também estarão sob o cuidado de máquinas.
    No campo da tradução, a maior dificuldade será suprir a intuição, a subjetividade, o tom, o sarcasmo, a ironia, enfim, nuances tipicamente humanas emanadas do texto. O computador AINDA opera com dados limitados, enquanto a linguagem aponta para o infinito. Até hoje, 20 de maio de 2010, tal substituição NÃO é possível, ainda que avanços relativos a projetos de inteligência artificial estejam de vento em popa.
    Ademais, outras questões, mais relacionadas a armadilhas extra-linguísticas que à subjetividade humana, devem ser consideradas. Dias atrás, enquanto traduzia para o português um texto publicitário de um shampoo, produzido nos Estados Unidos, reparei na armadilha mais camuflada e solene com a qual já me deparei. A fórmula do shampoo era destinada à redução da queda do cabelo durante o outono (dizem as más línguas que nosso cabelo é influenciado pela estação mais down do ano - o outono), sendo assim, no encarte do produto constava a seguinte informação: período mais indicado para uso: setembro, outubro e novembro. Bom, isso até o Georgetown experiment de 1954 traduziria com resultados impecáveis (pro russo, no caso). O que a máquina não atentaria é para o fato de que o outono no hemisfério sul não equivale, em português, a september, october e november. Ta aí um caso de tradução outonal.  Soa ridículo mas é isso mesmo, dependendo do contexto, até as estações do ano devem ser traduzidas conforme seus meses de ocorrência.
Não afirmo que jamais uma máquina teria capacidade de configurar tal equivalência, e tenho um argumento simples pra justificar minha posição: há quinhentos anos, acreditar que a terra gira em torno do sol seria motivo de chacota. 
 Em outras palavras, ainda desconhecemos muito pra ousarmos afirmações tão generalistas. Contudo, é como eu disse, o dia em que modelos de inteligência artificial descartarem o cérebro de um tradutor, cilônios andarão sobre a terra e, se já não tivermos sido extintos, retornaremos ao posto de subordinados.

Como se não bastasse, além da discussão moral existe a questão comercial. Muita - mas MUITA – grana está envolvida nos dois extremos da polêmica, e grana, até onde eu sei e até onde história me respalda, sempre pesou demais nos rumos que a humanidade tomou.
Sem maiores considerações:

-            Tradução Automática, no estado em que se encontra não dispensa a força humana, a não ser no nível mais superficial. Entretanto, interesses comerciais e disponibilidade de investimentos aceleram significativamente o desenvolvimento de temíveis tecnologias.

-            Pseudo-tradutores e bonitões que passaram 15 dias na Disney e manjam pra caralho de inglês estão com os dias contados. A regulamentação da profissão não será formalizada pelo ministério do trabalho, pelo governo, ou por sindicatos, mas por recursos online gratuitos que dispensarão conhecimentos medianos.

-            A TA será um filtro para a profissão. Somente tradutores competentes serão capazes de conviver  harmoniosamente com a ferramenta, o resto terá que arrumar outra coisa pra fazer. Como graduanda, ainda não atingi o nível de competência que aspiro, mas vou batalhar pra conquistar meu posto em uma área para a qual estudo feito louca.

Quando o chororô é grande, há quem chore e há quem faça a vida vendendo lenço. Questão de opção.


Copenhagen 2009

   Antes, bem antes de Copenhagen falhar, nós, ao depositamos insatisfações a quem julgamos ter poder de mudar o mundo, falhamos.
   É caracteristicamente humano aconchegarmos na ilusão de que as transformações almejadas pela sociedade devem partir do externo, do alheio. A maior fonte de frustrações, sejam elas particulares ou de caráter global, partem desse tipo de suposição.
   A irresponsabilidade ambiental a aloprar a sociedade contemporânea não parte exclusivamente de representantes governamentais ou de grandes corporativas, mas de cada indivíduo a compreender cada sociedade.
   Nunca se esqueça, caro leitor, de que tanto a alocação insustentável de recursos naturais quanto o cúmulo nas emissões de CO2 existem primordialmente porque há um mercado consumidor disposto a absorver os produtos e mercadorias gerados a partir de práticas de produção insustentáveis.
   Os efeitos colaterais provindos do desmazelo ambiental não devem ser depositados apenas sobre os ombros de grandes indústrias e corporações, a típica família brasileira de classe alta com mais carros na garagem que habitantes dentro de casa também deve ser responsabilizada; assim como a sociedade de exagero norte-americana, a promover por meio de massivas estratégias manipulatórias a gula - caracterizada especialmente pelo cultura do SuperSize, a busca por reconhecimento social - delineada pela fútil necessidade de acompanhar tendências, o estímulo ao consumo incessante de novos e novos produtos - quando os já adquiridos poderiam ser facilmente reparados e readaptados ao uso.
  Não nos esqueçamos de nossos irmãos asiátivos que, excitados por perspectivas de crescimento econômico, submetem gerações futuras a incertezas até mesmo com relação à sobrevivência.
   Somos parte de um todo que exije, que demanda, que suga e se esbalda, porém, quando alertados a respeito dos riscos e colapsos potenciais, nos limitamos a depositar a responsabilidade e a criação de soluções a terceiros. É aí que reside o erro.
   Obama falhou, Lula falhou, Sarkozi, Gordon Brown, Wen Jiabao, todos falharam, mas a motivação do fracasso dos principais líderes mundiais parte de seus respectivos compatriotas que, ao invés de agirem sustentavelmente, depositam expectativas vagas a la panaceia a terceiros.
   Certamente todas as manifestações de reprovação à tendência inerte do COP15 são louváveis. Ativistas de diversas partes do mundo se organizaram a fim de demandar medidas ao menos experimentais da COP15, todavia, a essência da polêmica jaz na conscientização da necessidade de Atitude por parte de cada indivíduo enquanto habitante de um planeta em vias de colapso.
   Tão fácil quanto manifestar é adotar a reciclagem como costume diário, assim como buscar formas alternativas de transporte, ao menos em cidades onde é possível optar por bicicletas, por transporte público, ou mesmo utilizar-se dos pés e do tecido adiposo como locomotores. Chega a ser escandalizador observar, especialmente em metrópoles, a quantidades de carros com apenas uma pessoa dentro.
  Tão possível quanto promover manifestações e passeatas é fazer valer as funções dos métodos contraceptivos, é colaborar ativa e individualmente, ao invés de depositar, em mãos parciais, a responsabilidade pela salvação do planeta.
   Por que consumir exageradamente mais que o necessário? Por que desperdiçar tanto? Por que trocar de carro todo ano? Por que tanta ostentação? Mais adiante ainda, por que consumir além do necessário produtos que só contribuem para a manutenção do ciclo vicioso da produção em massa?
   São mudanças relativamente simples a solução de um problema de natureza tão séria. Não se trata de demagogia, um princípio básico da economia contribui para a compreensão: sem tamanha demanda não existiria tamanha oferta; sem tamanha oferta, as metas de redução na emissão de gases nocivos seriam atingidas sem a necessidade de Protocolos de Kyoto ou de reuniões de âmbito mundial com desfechos frustrantes.
   Mesmo que freássemos a emissão de gases nocivos, ainda que sancionássemos medidas radicais contra o desmatamento ou a poluição de reservas naturais, sem conscientização, sem respeito e educação individualmente aplicados, o planeta continuaria seguindo rumo à decadência.

Yes we can visit mars. Yes we can develop atomic weapons. Yes we can build skyscrapers as much as we want. Yes we can find cure. Yes we can elect any president we want.
Só não podemos cavar mais devagar nossa própria sepultura.