11.8.10

Uma verdade bem conveniente.

"Se o estudo ao qual nos dedicamos tem a tendência de enfraquecer-nos as emoções e destruir nosso gosto pelos prazeres simples que nada pode corromper, então esse estudo é certamente inadequado à mente humana. Se tal regra tivesse sempre sido observada, se homem algum permitisse que sua busca, fosse qual fosse, interferisse na tranquilidade de sua vida particular, a Grécia não teria sido escravizada, César teria poupado sua terra, a América teria sido descoberta mais gradualmente e os impérios do México e do Peru não teriam sido destruídos."

Frankenstein - Mary Shelley.

9.7.10

On translation

"O tradutor, antes mesmo de sê-lo, é leitor. E como todo leitor, negligente ou rigoroso, seu primeiro movimento é de se entregar ao que lhe falam. De considerar o que lhe contam. De tomar pé, certamente, das palavras que lhe são servidas, mas logo se evade e constroi uma representação da experiência que lhe é produzida. Experiência a partir da qual ele supõe, sem mesmo dar-se conta, que o próprio autor foi embora. Ele incialmente presta menos atenção no que lhe é dito do que no que o entretém.
Seria inútil, seria estúpido alguém reprová-lo por isso. Mas seria uma espécie de cegueira não reconhecê-lo. E não perceber que toda sua prática, com muita frequência, deriva desse modo de leitura. Pois não é de praxe que, uma vez construída essa representação, o tradutor se volte e considere a sequência de vocábulos que a permitiu. E sua tarefa então lhe parece clara: essa representação, é necessário dizê-la. E dizê-la, pensa ele, "como se diria", ou seja, naturalmente, espontaneamente, direto e sem contorções. Porque o tradutor tem, como todos, o sentimento profundo e mal definível de que existe para qualquer representação uma maneira de dizer espontânea, natural, direta e nua, que ele conhece e que lhe pertence, da qual não pode se afastar".

CHEVALIER, "Traduction, littéralité et chaîne de causalités", 1995.

19.5.10

Máquina x tradução

    Hoje, pela primeira vez, deparei-me com uma reportagem sobre tradução que projeta o panorama futuro da atividade, que apresenta uma cronologia sobre o desenvolvimento de tradutores automáticos, que filosofa sobre Babel, que considera entrevistas com intercambista, construtor civil, cientista da computação, relações-públicas, entre outros, mas que não se dá ao trabalho de conferir a opinião de um reles tradutor profissional.
Trata-se da recente “Do you speak google”, publicada pela Veja em 03/05/2010.
    É o mais evidente espetáculo de desatinos, materializado pela implicitação de que é Deus no céu e o google tradutor na terra. Surtos à parte, vou me restringir a opinar sobre a aterrorizante perspectiva de ‘genocídio’ dos tradutores.
Em primeiro lugar, desde que o mundo é mundo profissões surgem, desaparecem ou transformam-se em atividades que apenas remotamente assemelham-se à original. As conceituações variam ao longo dos anos. 
Especialmente com o advento da revolução industrial, no século XVIII, tal fenômeno só foi acentuado. Transformações sociais que antes levariam séculos para mostrarem-se evidentes, a partir de então tomam forma em questão de meses. Ingenuidade é não enxergar isso.
Desde agora já esclareço: não desacredito na possibilidade de máquinas me chutarem pro olho da rua. Mas, juntamente com isso eu te asseguro uma coisa: a essa altura, peitos abertos em salas de cirurgias também estarão sob o cuidado de máquinas.
    No campo da tradução, a maior dificuldade será suprir a intuição, a subjetividade, o tom, o sarcasmo, a ironia, enfim, nuances tipicamente humanas emanadas do texto. O computador AINDA opera com dados limitados, enquanto a linguagem aponta para o infinito. Até hoje, 20 de maio de 2010, tal substituição NÃO é possível, ainda que avanços relativos a projetos de inteligência artificial estejam de vento em popa.
    Ademais, outras questões, mais relacionadas a armadilhas extra-linguísticas que à subjetividade humana, devem ser consideradas. Dias atrás, enquanto traduzia para o português um texto publicitário de um shampoo, produzido nos Estados Unidos, reparei na armadilha mais camuflada e solene com a qual já me deparei. A fórmula do shampoo era destinada à redução da queda do cabelo durante o outono (dizem as más línguas que nosso cabelo é influenciado pela estação mais down do ano - o outono), sendo assim, no encarte do produto constava a seguinte informação: período mais indicado para uso: setembro, outubro e novembro. Bom, isso até o Georgetown experiment de 1954 traduziria com resultados impecáveis (pro russo, no caso). O que a máquina não atentaria é para o fato de que o outono no hemisfério sul não equivale, em português, a september, october e november. Ta aí um caso de tradução outonal.  Soa ridículo mas é isso mesmo, dependendo do contexto, até as estações do ano devem ser traduzidas conforme seus meses de ocorrência.
Não afirmo que jamais uma máquina teria capacidade de configurar tal equivalência, e tenho um argumento simples pra justificar minha posição: há quinhentos anos, acreditar que a terra gira em torno do sol seria motivo de chacota. 
 Em outras palavras, ainda desconhecemos muito pra ousarmos afirmações tão generalistas. Contudo, é como eu disse, o dia em que modelos de inteligência artificial descartarem o cérebro de um tradutor, cilônios andarão sobre a terra e, se já não tivermos sido extintos, retornaremos ao posto de subordinados.

Como se não bastasse, além da discussão moral existe a questão comercial. Muita - mas MUITA – grana está envolvida nos dois extremos da polêmica, e grana, até onde eu sei e até onde história me respalda, sempre pesou demais nos rumos que a humanidade tomou.
Sem maiores considerações:

-            Tradução Automática, no estado em que se encontra não dispensa a força humana, a não ser no nível mais superficial. Entretanto, interesses comerciais e disponibilidade de investimentos aceleram significativamente o desenvolvimento de temíveis tecnologias.

-            Pseudo-tradutores e bonitões que passaram 15 dias na Disney e manjam pra caralho de inglês estão com os dias contados. A regulamentação da profissão não será formalizada pelo ministério do trabalho, pelo governo, ou por sindicatos, mas por recursos online gratuitos que dispensarão conhecimentos medianos.

-            A TA será um filtro para a profissão. Somente tradutores competentes serão capazes de conviver  harmoniosamente com a ferramenta, o resto terá que arrumar outra coisa pra fazer. Como graduanda, ainda não atingi o nível de competência que aspiro, mas vou batalhar pra conquistar meu posto em uma área para a qual estudo feito louca.

Quando o chororô é grande, há quem chore e há quem faça a vida vendendo lenço. Questão de opção.

6.1.10

Copenhagen 2009

   Antes, bem antes de Copenhagen falhar, nós, ao depositamos insatisfações a quem julgamos ter poder de mudar o mundo, falhamos.
   É caracteristicamente humano aconchegarmos na ilusão de que as transformações almejadas pela sociedade devem partir do externo, do alheio. A maior fonte de frustrações, sejam elas particulares ou de caráter global, partem desse tipo de suposição.
   A irresponsabilidade ambiental a aloprar a sociedade contemporânea não parte exclusivamente de representantes governamentais ou de grandes corporativas, mas de cada indivíduo a compreender cada sociedade.
   Nunca se esqueça, caro leitor, de que tanto a alocação insustentável de recursos naturais quanto o cúmulo nas emissões de CO2 existem primordialmente porque há um mercado consumidor disposto a absorver os produtos e mercadorias gerados a partir de práticas de produção insustentáveis.
   Os efeitos colaterais provindos do desmazelo ambiental não devem ser depositados apenas sobre os ombros de grandes indústrias e corporações, a típica família brasileira de classe alta com mais carros na garagem que habitantes dentro de casa também deve ser responsabilizada; assim como a sociedade de exagero norte-americana, a promover por meio de massivas estratégias manipulatórias a gula - caracterizada especialmente pelo cultura do SuperSize, a busca por reconhecimento social - delineada pela fútil necessidade de acompanhar tendências, o estímulo ao consumo incessante de novos e novos produtos - quando os já adquiridos poderiam ser facilmente reparados e readaptados ao uso.
  Não nos esqueçamos de nossos irmãos asiátivos que, excitados por perspectivas de crescimento econômico, submetem gerações futuras a incertezas até mesmo com relação à sobrevivência.
   Somos parte de um todo que exije, que demanda, que suga e se esbalda, porém, quando alertados a respeito dos riscos e colapsos potenciais, nos limitamos a depositar a responsabilidade e a criação de soluções a terceiros. É aí que reside o erro.
   Obama falhou, Lula falhou, Sarkozi, Gordon Brown, Wen Jiabao, todos falharam, mas a motivação do fracasso dos principais líderes mundiais parte de seus respectivos compatriotas que, ao invés de agirem sustentavelmente, depositam expectativas vagas a la panaceia a terceiros.
   Certamente todas as manifestações de reprovação à tendência inerte do COP15 são louváveis. Ativistas de diversas partes do mundo se organizaram a fim de demandar medidas ao menos experimentais da COP15, todavia, a essência da polêmica jaz na conscientização da necessidade de Atitude por parte de cada indivíduo enquanto habitante de um planeta em vias de colapso.
   Tão fácil quanto manifestar é adotar a reciclagem como costume diário, assim como buscar formas alternativas de transporte, ao menos em cidades onde é possível optar por bicicletas, por transporte público, ou mesmo utilizar-se dos pés e do tecido adiposo como locomotores. Chega a ser escandalizador observar, especialmente em metrópoles, a quantidades de carros com apenas uma pessoa dentro.
  Tão possível quanto promover manifestações e passeatas é fazer valer as funções dos métodos contraceptivos, é colaborar ativa e individualmente, ao invés de depositar, em mãos parciais, a responsabilidade pela salvação do planeta.
   Por que consumir exageradamente mais que o necessário? Por que desperdiçar tanto? Por que trocar de carro todo ano? Por que tanta ostentação? Mais adiante ainda, por que consumir além do necessário produtos que só contribuem para a manutenção do ciclo vicioso da produção em massa?
   São mudanças relativamente simples a solução de um problema de natureza tão séria. Não se trata de demagogia, um princípio básico da economia contribui para a compreensão: sem tamanha demanda não existiria tamanha oferta; sem tamanha oferta, as metas de redução na emissão de gases nocivos seriam atingidas sem a necessidade de Protocolos de Kyoto ou de reuniões de âmbito mundial com desfechos frustrantes.
   Mesmo que freássemos a emissão de gases nocivos, ainda que sancionássemos medidas radicais contra o desmatamento ou a poluição de reservas naturais, sem conscientização, sem respeito e educação individualmente aplicados, o planeta continuaria seguindo rumo à decadência.

Yes we can visit mars. Yes we can develop atomic weapons. Yes we can build skyscrapers as much as we want. Yes we can find cure. Yes we can elect any president we want.
Só não podemos cavar mais devagar nossa própria sepultura.

30.11.09

Insustentáveis contradições


Pisamos na lua mas não superamos medíocres preconceitos.
Produzimos ficções inter-espaciais futuristas mas não conseguimos transformar a realidade de nossos famintos contemporâneos.
Defendemos a produção em massa, mas não a distribuição em massa.
Damos voltas ao planeta mas ignoramos as necessidades de vizinhos de muro.
Armazenamos gigas em milímetros e ainda assim guerreamos por espaço físico.
Descobrimos curas biológicas mas permanecemos com as piores doenças espirituais.
Cruzamos continentes em minutos, todavia vivemos cercados de grades, arames, câmeras, muros e concreto.
Descartamos toneladas de alimento diariamente enquando milhares de adultos e crianças morrem às mínguas por desnutrição.
Construimos ilhas marítimas a la palmeiras, mas não oferecemos condições sanitárias básicas a 40 % da população mundial.
Desenvolvemos forças atômicas mas não conseguimos conter nosso livre arbítrio.

18.10.09

por enquanto.


I've been down and I'm wondering why
These little black clouds keep walking around with me, with me
Waste time and I'd rather be high
Think I'll walk me outside and buy a rainbow smile but be free, they're all free
So maybe tomorrow I'll find my way home
So maybe tomorrow I'll find my way home

1.8.09

sem mais nem menos


   Quando comecei a estudar linguística não imaginei o quanto teria as perspectivas transformadas. É meio sinistro, as vezes imagino estar estudando psicologia.
   Imagino que poucos conseguem absorver a essência da Linguística pura, tanto que 98% dos alunos a contemplam como uma merda fodedora. O que desprezam é a beleza das descobertas individuais veiculadas pelo seu estudo.
   Fria e vagamente (sem qualquer indício de desprezo aqui) eu diria que estudar linguística é entender, observar e colocar em palavras o que a nós é intuitivo, considerando-se o fenômeno "comunicação". Mestres da oratória ou mesmo pegadores bom de lábia nada mais fazem que aplicar a linguística a suas estratégias de comunicação.
   Ethos, pathos, logos, Aristóteles foi um linguista vanguardista. O conceito de ethos é a maior prova do que digo.
   Todo discurso pressupõe a construção da imagem daqueles que estão envolvidos no processo interativo.     Há a imagem que o enunciador faz de si mesmo, a imagem que o enunciador faz de seu interlocutor e vice-versa. (obviamente há diversas outras interferências concernentes à construção de um discurso, mas a inteção aqui não é dar aula)
   Diariamente aplicamos fundamentos dessa instância, no entanto, por ser um fato humanamente inato, passa-se despercebido. Não colocamos em palavras ou estudamos minuciosamente tal ocorrência.
   Este raciocínio abre portas para inúmeras outras associações, e uma delas frequentemente martela a minha cabeça.
   Você já parou pra pensar que só somos capazes de estabelecer suposições, sejam elas quais forem, caso já tenhamos experienciado reações particulares em concordância com tais suposições?
   Ainda tenho leves dúvidas relativas à generalidade dessa afirmação, mas acredito que ela se aplica a uma abrangente gama de situações.
   Se as pessoas tivessem a mínima noção disso, se envergonhariam de diversas especulações que ousam exteriorizar durante toda a vida.
   Alguma vez li algo sobre isso em algum lugar e achei curioso. Não lembro o tipo de texto, se era científico ou não, só me recordo de ler algo do tipo: o ser humano não consegue supor, especular situações ou probabilidades que não reflitam o mínimo de sua própria essência e experiência.
   Há uma historinha bem difundida na internet que reflete muito bem o que falo. Há quem afirme ser este um teste aplicado a detentos como uma das avaliações na constatação de psicopatia.
   É o seguinte:
Uma menina se apaixona loucamente por um cara que conheceu no velório de sua mãe. A paixão é daquelas latentes e explosivas, porém, ela o perde de vista.
Uma semana depois essa menina assassina a irmã.
POR QUÊ?

Pessoas normais especulariam: Pq ela viu a irmã "pegando" o cara e foi tomada por uma cólera mortal, que "apagou as lamparinas de sua razão".

... Pensaste assim?

Segundo rumores, a resposta de um psicopata seria a seguinte:

Ela matou a irmã afim de atrair o rapaz ao velório e se encontrar novamente com ele.

   Interpretando, pessoas normais não cogitariam a possibilidade de uma atitude tão calculista porque particularmente não experienciam nenhum tipo de impulso, sentimento, seja lá como categorizam isso, capaz de levá-las a reagir de tal forma, sendo assim, em seus 'quadros de probabilidades' não existe essa hipótese.
   Segundo a lógica, psicopatas são capazes de supor essa possibilidade pois particularmente experienciam emoções ou impulsos que já os levaram a ao menos imaginar tal situação.

   Quantas vezes julgamos gestos, atitudes, palavras, ou mesmo o caráter de terceiros, sem imaginar que, se somos capazes de presumir em relação a eles, é pq somos capazes, de alguma forma, de praticar exatamente o mesmo.

  Não é uma grande descoberta, aliás, não acredito ser uma descoberta. Trata-se de algo que, intuitivamente, todo mundo sabe. Só não é um raciocínio conveniente a se difundir.

   A verdade é que somos todos lobos.
   Minhas modestas associações só me conduzem a acreditar que, definitivamente, nossas atitudes, ao menos enquanto humanos, são todas com fins de "auto-preservação", o resto é balela.
   Altruismo, misericórdia, compaixão e amor, mesmo que dedicados a terceiros, nada mais são que fontes alternativas a visar satisfação pessoal.
   O que felizmente existe é a coincidência de interesses: A sua felicidade ME alegra, o teu conforte ME conforta, ou, a sua tristeza ME deprime, a sua fome ME abate.
   A discussão é bem complexa, um tanto quanto anti-social, mas eu te afirmo, amigo, não tem como escapar. A reação inicial quase sempre é de negar e contestar energicamente, mas, apesar de doloroso, é uma verdade humana.

   Hoje, estou cansada. Cansada da realidade, tão real que me entristece. O egoismo sempre vence, é inevitável.
   Cansada de me deparar com o fato de que sinto medo, de que tenho pontos fracos e que frequentemente tento escondê-los.

... cansada, principalmente, da simples coincidência de interesses.